terça-feira, 23 de março de 2010

ALGUMAS DO SANTARÉM, o FOCA.

Dois episódios vividos com o Argeu Santarém – à época um jornalista iniciante, um “Foca”, do jornal O Nacional – acontecidos lá pelo ano de 1966, quando eu era 2º Tenente da Briosa e comandava em Passo Fundo os “Pedro e Paulo” (tempos bons aqueles, em que os PMs tinham nome e presença nas ruas) creio que possam ser lembrados em homenagem a este amigo recentemente falecido.

O primeiro.
No Comando do Pelotão assumia eu, além do policiamento em Passo Fundo (com seus então 70/80.000 habitantes e mais ou menos 4.500 veículos matriculados), também a responsabilidade pela segurança de Marau, Casca, Sertão, Tapejara, Davi Canabarro e Ciríaco. Essa era a área de responsabilidade do 1º Pelotão da 1ª Cia. do então 2º Batalhão de Polícia, hoje de novo 3º Regimento.
Na época o Batalhão incluiu 600 (verdade: seiscentos) novos soldados e destes escolhi (a dedo) 60 para compor e reforçar o meu pelotão, iniciando a instrução deles que, adianto, foi dirigida pessoalmente por mim e restou diferenciada da dos demais.
Com soldados novos (e novos mesmo, pois os que escolhi tinham entre 21 e 22 anos, tendo merecido do comandante da época o apelido de “Pelotão IÉ-IÉ-IÉ", numa referência à turma do Rei Roberto Carlos) reforçando o policiamento da cidade de Passo Fundo, instruídos adequadamente e coincidindo a entrada em vigor de um novo e severo (!?!?!?) Código de Trânsito, o aperto promovido – a nível de tolerância zero – mexeu com a população e provocou “murmúrios” que acabaram gerando comentário em matéria produzida pelo Argeu.
A pena brilhante já se fazia notar desde os primeiros textos e a crítica mordaz, ainda que incipiente, não se fazia por rogada: aparecia mesmo. E o ponto da matéria pelo Argeu escrita – como ainda é hoje, quando a fiscalização de trânsito aperta – era no sentido de que o policiamento não deveria se preocupar tanto com o trânsito, mas sim com outras áreas da segurança.
Só para não deixar de referir, Passo Fundo era uma cidade segura “naqueles tempos” e o pouco de bandidagem que aparecia era logo despachado, seja com o recolhimento legalmente feito, ou, por assustada com o número de policiais trabalhando na rua vinte e quatro horas, sumia para outros recantos, longe da nossa área.
Em face da matéria, acabei contatando com o Argeu, em um encontro casual, na Avenida General Neto (defronte do ponto que, anos depois, ficaria conhecido como a República dos Coqueiros, nome por ele, Argeu, atribuído à quadra defronte a Catedral).
E ali combinamos que ele me acompanharia durante um dia inteiro, nas ações de Polícia Ostensiva em Passo Fundo.
E assim foi feito. Passou um dia inteiro comigo, observando o planejamento do dia, o “briefing” antes da saída dos PMs em direção aos seus postos e andando no jeep que realizava a fiscalização do trabalho. Almoçamos e jantamos juntos e ficou observando o trabalho ainda noite a dentro, vendo o policiamento trabalhando bem mais e além da fiscalização do trânsito.
Acho que basta dizer que nos tornamos muito amigos. Desde então, tudo o que dizia a respeito à área do policiamento ostensivo sempre era por ele tratado de uma forma diferente. Afinal, tinha percebido que, tal como um iceberg, as ações policiais que vemos é apenas uma pequena parte de um todo muito maior.

O outro fato.

Entre o final do ano de 1966 e início de 1967, dei andamento a uma campanha intensa de educação para o trânsito, acompanhada da colocação de sinalização que praticamente inexistia, usando os soldados do meu Pelotão para a sua execução.
Ainda que a responsabilidade da sinalização fosse então do Estado, tivemos aí o apoio irrestrito do grande Prefeito da época, Sr. Mário Menegaz, e da população que, sabendo das dificuldades existentes quanto à aquisição de tintas para a pintura dos sinais, aparecia no prédio que usávamos (onde hoje está o Edifício Benincá, na esquina da Rua Moron com a Bento Gonçalves), entregando ali galões e galões de tinta branca ou amarela.
Tudo bem, mas onde entra o Argeu Santarém nesta parte da história?
Pois entra numa certa manhã, na esquina da Avenida Brasil com a Rua Fagundes dos Reis, ali, junto ao Colégio Protásio Alves.
Estávamos eu e o Sargento Valdir observando e orientando a pintura de faixas de pedestres no local (as primeiras pintadas na cidade!) e o Argeu, que passava pelo local, ficou ali conversando e se informando do que fazíamos.
Neste momento, o Cabo Leônidas se aproxima e diz:”Tenente, não temos solvente para por na tinta e limpar os pincéis”. Então, meti a mão no bolso e entreguei a ele um determinado valor em dinheiro para que fosse até ali, na casa de tintas do Roratto, e comprasse o solvente de que precisava.
No dia seguinte, sou surpreendido ainda cedo no quartel com um reboliço a minha volta, sendo chamado à sala do comandante, Coronel Iriovaldo Maciel de Vargas.
E o que acontecera?
O Argeu, que era também correspondente da Rádio Guaíba de Porto Alegre, fizera no dia anterior matéria que dava conta de que os PMs de Passo Fundo estavam pagando, de seu próprio bolso, material para a sinalização de trânsito da Cidade.
Pronto. A notícia, que fora dada no muito ouvido jornal da noite da Guaíba, chegara à Casa Civil e, dali, à Casa Militar e aos ouvidos do próprio Governador, Eng.. Ildo Meneghetti, que cobrou imediatas providências para a solução da situação e que não mais se repetisse tal fato.
E em razão disso, vou eu lá dar explicações e responder portarias, afora entrevistas – cheio de cuidados – para emissoras de Porto Alegre.
A partir dali, os trabalhos de sinalização ficaram facilitados, seja pela liberação de mais material pela Prefeitura, seja por ter sido alcançado com mais assiduidade e quantidade pela população.
Graças à notícia produzida pelo Argeu.
Quanto ao Estado, tirando a cobrança sobre o fato que rendera a notícia, dele não veio nada mesmo.

Um comentário:

  1. Caro Xará,
    Cá estou novamente comentando seu blog, mas não poderia deixar de fazê-lo pois sou uma das testemunhas de tantos, de quanto foi importante o Pelotão IÊ,IÊ IÊ, principalmente com as novidades trazidas em sinalização, fiscalização e ordem no nosso trânsito, que ainda hoje tenho saudades, pois muito pouco evoluiu nestes mais de 40 anos. Quanto ao Argeu, muito bem lembrado, pois apesar de ser de Marau, adotou Passo Fundo de corpo e alma. Fomos colegas no então CENAV ( mais ou menos na época do Pelotão)e fizemos amizade que durou desde então.
    Obrigado pelas boas lembranças.

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